Uma pessoa pode esconder muitos detalhes de si por baixo
de um sorriso, e diferentemente de como todos supõe, nem todos estes detalhes
são ruins. Muitas vezes, por trás daquele rosto aparentemente comum, você acaba
descobrindo alguém muito interessante. Mais vezes ainda, você descobre como os
outros te julgam pelo modo que você se veste, sem nem titubear ao te nomear com
algum estereótipo.
Eu tinha treze anos quando resolvi que mudaria de estilo.
Decidi que eu ouviria, vestiria e sentiria o rock and roll todos os dias a partir daquele ano. Tinha cabelos
longos, então cortei na altura dos ombros. Comprei tênis de skatista, camisas de bandas, troquei meu
nickname no mirc (bate- papo online da época) para “Lalá_hxcx”, porque agora eu
era hardcore. Ao mesmo tempo em que
sofria essas mudanças, o casamento do meus pais estava entrando em crise, porém,
nunca relacionei minha transformação pessoal com os problemas matrimonias que
eles viviam na época. Hoje em dia penso que, inconscientemente, posso ter sido
mais afetada pelas brigas do que eu imaginava.
No ano seguinte, meus pais se divorciaram. Não me preocupei
muito, pois sempre pensei que era melhor que eles se separassem do que ficarem
discutindo constantemente. Eu e minha mãe nos mudamos para casa da minha querida
avó, e apesar de amá-la muito, era extremamente desconfortável morarmos nós
três juntas, mais o meu avô e nossas
duas cadelinhas da raça poodle. Coincidentemente (ou não), comecei a ter
problemas na escola neste mesmo período, e quis mudar de colégio. Na minha
cidade natal, Juiz de Fora, a maioria das instituições de ensino são católicas,
e assim era na minha nova escola. Lá, conheci minha melhor amiga, Luiza.
Juntas, pintamos uma parte de nossos cabelos de cores vivas, ela de azul, e eu
de rosa. Enquanto ela manteve o tom azulado, eu mudei para o vermelho e depois
para loiro, e quando já estava quase toda loira, pintei tudo de preto, embora
isso tenha sido uns dois anos mais tarde.
Até aos dezoito anos, vivi intensamente. Fiz muitas
amizades, algumas verdadeiras e outras nem tanto assim. Conheci pessoas de
cidades distantes, e com isso tive a
oportunidade de ir visitá-las e explorar outros cantos do país. Conheci meu
primeiro namorado (com quem fiquei por quatro anos, entre idas e vindas),
experimentei a maravilhosa sensação de comparecer ao show de uma banda que eu era fã, e tive a oportunidade de conferir
com meus próprios olhos como a “Galeria do Rock”, em São Paulo, só tinha
produtos para roqueiros ricos. Claro que cometi alguns erros, fiquei bêbada com
aqueles vinhos de quatro reais e entrei em uma boate com carteira de identidade
falsa, mas acho que meu anjo da guarda é forte porque nada de ruim me
aconteceu. Ao contrário do que grande parte da população pensa, os roqueiros
não são drogados. Claro que conheci algumas pessoas que eram usuárias de
substâncias ilícitas, mas não era porque escutavam músicas com um som mais
pesado, e nem por isso tive curiosidade de experimentá-las. Para mim, que tive
uma boa estrutura familiar e sempre tive muito juízo, nunca foi um mundo
atraente. O que mais me incomodava era o jeito que as pessoas me olhavam só
porque eu me vestia diferente, ou que me julgavam uma drogada só porque eu e
meus amigos fazíamos parte de uma turma que tinha cabelos coloridos. E quando
veio a moda emo então? Aí é que sofri
bullying mesmo (embora naquele tempo
este tipo de situação não tivesse nome). As pessoas não sabiam diferenciar os
tipos de integrantes do mundo do rock,
portanto, qualquer menina que usasse lápis de olho e cabelos coloridos era emo.
Quando completei dezenove anos, tudo mudou. Optei por uma
mudança total de estilo, novamente. Renovei meu guarda roupa, resolvi que iria
clarear os cabelos e que só usaria salto alto (o que necessitou de um bom tempo
de prática). Conheci meu atual namorado em um site sobre Harry Potter no qual eu era editora, e depois de um ano me mudei
para cidade dele, São José do Rio Preto, onde moro com a minha mãe e faço
faculdade de jornalismo (e futuramente, um curso de moda também). Agora raramente
bebo e meus lugares favoritos são o cinema e alguns restaurantes.
Agora com vinte e um, quem olha pra mim não acredita que
eu já tive piercing no lábio (o que
acarretou um silêncio de trinta dias do meu pai) e no nariz, que usei “alargadores”
nas orelhas, que eu tinha o cabelo cor de rosa e que amo ler. O que restou
daquela época? Ainda gosto das mesmas músicas, minha estante de livros cresce
cada vez mais, assim como minha paixão por filmes e seriados (sou cinéfila de
carteirinha), continuo semi vegetariana, não sei viver sem meu lápis de olho e
minha cor favorita ainda é preto.
Tudo o que vivi adicionou uma grande quantidade de
conhecimento para minha bagagem emocional, e quando olho para trás não tenho
nenhum arrependimento. Sei que ainda sou jovem e que muitas coisas irão
acontecer, mas sei que apesar das muitas palavras negativas que ouvi nesses
anos que passaram, sinto que agora estou exatamente onde deveria estar.
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