Não
sei se é de conhecimento geral, mas Truman Capote era escritor (algumas vezes,
roteirista) e passou a maior parte da vida escrevendo contos que eram
publicados periodicamente em jornais e revistas de Nova York. Apesar de ser
autor de cinco livros, tornou-se especialmente
conhecido por “A Sangue Frio”, publicado em 1966 e escrito em uma fase em que
sua vida profissional não ia muito bem. Foram quatro longos anos trabalhando
nesta obra, e o resultado não poderia ser melhor.
Talvez,
ao ler uma simples sinopse do livro, sejamos ludibriados e levados a crer que
“A Sangue Frio” conta somente a história do assassinato da família Clutter e
que fim levaram os acusados deste crime, e é aí que descobrimos o nosso mais
sincero engano. Capote não se contentou em ler sobre o crime e conversar com
algumas testemunhas. Ele foi até a cidade Holcomb, no oeste do Kansas, onde os
assassinatos ocorreram, junto com sua amiga de infância, Harper Lee. Sem
nenhuma pressa, entrevistou os amigos e conhecidos de Herbet Clutter, de sua
perturbada esposa, Bonnie Clutter, e de seus dois filhos mais novos, Nancy e
Kenyon Clutter. Não satisfeito, também procurou psicólogos que avaliaram o
perfil psicológico dos assassinos Richard
“Dick” Hickock e Perry Smith, e como se não bastasse, conversou com os
próprios.
O livro narra como o crime abalou aquela
pequena cidade e seus habitantes, formada em grande maioria por fazendeiros e
agricultores. Os Clutter eram muito respeitados, e Herb tinha uma grande e
bonita propriedade, onde empregava várias pessoas da cidade. Eveanna e Beverly
Clutter, suas filhas mais velhas, haviam se mudado de cidade depois que saíram
do ensino médio para iniciar suas vidas adultas, e foi isso que as salvou.
Capote conta os eventos como se tivesse acompanhado de longe (mas não muito)
Hickock e Smith desde de quando optaram pela vida de crimes até sua execução em
14 de abril de 1965.
Descobrimos, no decorrer da história, que é
possível ter um pouco de compaixão por Perry Smith, apesar de suas atitudes
hediondas. Uma boa explicação para isso é que Hickcok é descrito com uma
personalidade muito pior, com uma quantidade de motivos bem menor para
desenvolver àquele tipo de comportamento, se é que existe no mundo algum motivo
plausível para cometer um assassinato. Dizem às más línguas que Truman Capote
teve um pequeno envolvimento romântico com Smith, o que esclareceria este
favoritismo disfarçado.
Acompanhamos os detalhes da morte da família
Clutter da maneira menos mórbida possível, temos acesso a testemunhos,
exclusivos ou não, de diversos moradores de Holcomb. Sabemos como os detetives
responsáveis pelo caso conduziram algumas partes de sua investigação, como foi
o julgamento dos assassinos e traçamos, juntos com Capote, todo o percurso
realizado por Smith e Hickcok, já que a vida deles foi bastante agitada antes e
depois do crime.
A história é envolvente, e mesmo com alguns
momentos um tanto cansativos, não permite que você vá dormir sem ler “só mais
um capítulo”. O livro é baseado em um crime real, que foi amplamente
pesquisado, mas não deixa de ter um pouco de fantasia. Alguns testemunhos foram enfeitados de acordo
com o gosto do autor, o que deixou seu trabalho mais atraente, diga-se de
passagem.
Se indicar não for suficiente, cabe a mim
exigir que todos leiam este livro. Senão pelo tema da história, que seja pela
arquitetura da mesma. Toda a investigação, verificação de fatos e o empenho em
saber mais sobre o acontecimento já poderiam ser considerados louváveis, mas
Truman pegou os fatos e teceu uma rede literária capaz de aprisionar até mesmo o
mais exigente dos leitores. Não é a toa que Capote é considerado o pioneiro do
jornalismo literário, já que produziu com admirável maestria, este livro que se
já não é, deveria ser eternizado.

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